EU E O URUBU




Aos treze anos de idade, enquanto a maioria das crianças se preocupava em aprender a equilibrar os patins, eu já ostentava uma silhueta robusta, um charme proporcional e uma rotina de gente grande: frequentar o Centro Cultural Brasil-Estados Unidos.

Era um dia ensolarado — e quando digo ensolarado, refiro-me àquele sol radiante das duas da tarde capaz de derreter o asfalto e fritar um ovo na calçada. Lá estava eu, impecavelmente arrumada, fofíssima, postada debaixo de um poste à espera do lendário ônibus Djalma Dutra. Quem conhece sabe: o bendito não era um meio de transporte, era uma lenda urbana. Demorava tanto a passar que a gente começava a viagem na infância e desembarcava na adolescência.

Enquanto eu derretia lentamente sob o mormaço, mantinha a postura de menina elegante. De repente, senti algo cair suavemente no topo da minha cabeça. Como estava perto de umas árvores, pensei imediatamente: "Nossa, que poético, uma folha caindo sobre mim como num filme."

Passei a mão para tirar o tal presente da natureza.

Não era uma folha. Não era uma flor. Era um batismo aviário. O urubu lá do alto olhou para a minha figura parada no ponto, mirou como um atirador de elite e me contemplou com uma bomba fecal de proporções catastróficas.

O pânico foi instantâneo. Esquece o inglês, esquece a elegância, esquece o ônibus! Saí em disparada pela rua, aos prantos, soluçando num desespero de dar dó.

Cheguei em casa parecendo que tinha presenciado o fim do mundo. Meu pai, ao me ver naquele estado de transe e desespero, quase teve um treco. — O que foi, minha filha?! Te assaltaram?! Te bateram?! Fala pelo amor de Deus!

E eu lá, engolindo o choro, sem conseguir articular uma sílaba. Depois de três minutos de hiperventilação dramática, consegui expelir a tragédia: — O urubu... fez cocô... NA MINHA CABEÇA!

Instaurou-se o caos doméstico. A moça que trabalhava com a gente me arrastou imediatamente para o quintal para iniciar a operação de descontaminação. Enquanto a água caía, eu, traumatizada e convicta de que minha cabeça precisava de uma esterilização nível hospitalar, gritava desesperada pedindo medidas extremas: — Põe álcool! Passa criolina! Joga água sanitária!

Até hoje mantenho duas certezas na vida: a primeira é que o Djalma Dutra continua demorando para passar; a segunda é que, se a vida te der limões, faça uma limonada, mas se ela te der um urubu sobre a cabeça, corra direto para o chuveiro do quintal!

 




Gente, eu preciso contar uma agora porque eu ainda tô rindo sozinha lembrando disso, sério kkkkkkk

Vou resumir o crime: fui comprar uma roupa pela internet, super animada, e na hora de digitar o número da casa — que é 733 — eu, com toda a competência que Deus me deu, digitei 734. UM DÍGITO. Um mísero dígito errado e meu vestido novo simplesmente decidiu morar na casa do vizinho da frente sem me avisar nada!!

Aí eu descobri o erro rastreando a encomenda igualzinho a quem tá acompanhando resultado de eleição, o dedo suando no celular, atualizando a cada cinco minutos. E a partir dali, gente, eu virei outra pessoa. Virei "vigia de pátio profissional". Botei uma cadeira lá fora, feito quem está esperando visita de rainha, e fiquei de plantão desde as OITO da manhã. Oito! Da manhã! Numa terça-feira normal, por causa de um vestido!

Passou meio-dia. Passou uma hora, duas, três... quatro da tarde e eu ainda lá, feito estátua, com a paciência de Jó e a teimosia de mula. Até que cansei, subi ao segundo andar só pra descansar as pernas dois minutinhos. E foi JUSTO nesse intervalo de fraqueza que o destino resolveu pregar a maior peça da minha vida.

A diarista, que já devia tá desconfiando seriamente da minha sanidade mental a essa altura, grita lá de baixo: "O CARTEIRO PASSOU!!"

Gente, eu não desci a escada. Eu VOEI a escada. Ela, no susto da minha corrida desembestada, derruba o balde, quase escorrega, água pra todo canto da cozinha — e eu?? Nem olhei pra trás! Desculpa, mulher, mas aqui é cada um por si quando tem um vestido novo em jogo, kkkkkkkk!!

Abro o portão feito doida, saio correndo pela rua gritando "CARTEIRO! CARTEIRO! CARTEIRO!" — carro passando do lado, vizinho olhando pela janela, certeza que já tô rendendo assunto no grupo de zap da rua até hoje. O coitado do carteiro, lá longe, na esquina, ouve aquele berreiro, para o carro meio assustado e grita "já vou aí!"

Eu, ofegante, suada, correndo atrás do carro dos Correios feito repórter atrás de furo de reportagem, chego lá pedindo desculpa mil vezes pelo número errado. E o homem, com toda a calma do mundo, me entrega a encomenda, olha bem na minha cara e solta:

— Vai usar um vestido novo, né?

Gente, EU MORRI DE VERGONHA.  Sim, vou usar sim — e aparentemente também vou correr maratona atrás dele sempre que precisar kkkkkkkkkk.


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